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Publicado em 14/06/2017 às 16h22
No Caldeirão do Diabo


JOSÉ LUIZ BEDNARSKI

O velho toma mais um gole para se inspirar. Os olhos fitos no vazio viajam pela memória. Não é uma estória qualquer.

A bola era de capotão. Quando chovia, parecia de chumbo. Era também mais difícil jogar com uniforme e chuteiras daquela época. Perto dos guerreiros de outrora, os jogadores atuais parecem manequins de butique.

Sem filmagem e câmeras indiscretas, os árbitros eram mais tendenciosos e os zagueiros mais desleais. Em partidas noturnas, a iluminação acanhada fazia o local parecer uma boate. Até os conhecidos buracos do campo favoreciam o anfitrião, que lutava todos os anos contra o rebaixamento e precisava desesperadamente da vitória.

A íngreme arquibancada era tão rente às linhas da cancha, que o alambrando não suportava a pressão da torcida e cobrança de lateral virava cochicho ao pé do ouvido, sessão de cuspe e tapas ardidos na nuca.

A equipe jogava de vermelho e o estádio opressor ficou conhecido como o Caldeirão do Diabo. Ali, time grande se apequenava. Garra e raça valiam mais que categoria e técnica para definir o resultado das partidas.

Somente um atleta visitante não cozinhava no inferno do Caldeirão. Ao invés de intimidar, provocações da arquibancada motivavam-lhe a dar espetáculo. Se estivesse lotada, aí então que ele se endiabrava.

Era um jogador completo e descomunal. Chutava bem com as duas, exímio cabeceador, velocista incomparável, maestro cerebral ditando o jogo, passes perfeitos, lançamentos criativos, artilheiro implacável de fazer tabelinha com a canela dos beques, voltava para marcar, mortal em cobranças de falta a qualquer distância, deslocava-se inteligentemente com ou sem a bola, sempre com a cabeça erguida.

Uma tarde, um ‘xerifão’ maldoso tentou usar alfinetes no calção para feri-lo e acabou de perna quebrada. Aconteceu no Caldeirão do Diabo e em muitos outros estádios. Pelé, o Rei do Futebol, é brasileiro. Ninguém foi, é ou será como ele.
Gênios não nascem todos os dias, só de vez em quando. Maradona foi magnífico com sua canhota, um vice-rei.  Messi também é um talento diferenciado, mas compará-lo com Pelé é uma heresia futebolística. No máximo, pode amarrar as chuteiras do Rei.

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Coluna assinada pelo Promotor de Justiça da Cidadania, José Luiz Bednarski. Uma abordagem apartidária, com discussão aberta dos assuntos de interesse geral; o amadurecimento paulatino da cidadania, a força da população em diálogo com órgãos independentes representativos, como MP, Defensoria Pública e outras instituições criadas ou fortalecidas a partir daConstituição de 1988.


E-mail do autor: joseluizbednarski@gmail.com
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